A medicina moderna mudou drasticamente ao longo do último século.
Houve um tempo em que muitas decisões médicas eram baseadas principalmente na tradição, na experiência anedótica ou na intuição. Embora a experiência clínica continue sendo extremamente importante, a assistência médica hoje depende cada vez mais de algo mais sólido: evidências.
Este é o fundamento da medicina baseada em evidências (MBE), também conhecida como prática baseada em evidências (PBE).
Em sua essência, a medicina baseada em evidências significa usar as melhores evidências científicas disponíveis, juntamente com a experiência clínica e as preferências do paciente, para tomar decisões sobre o cuidado do paciente.[1,2]
É um dos avanços mais importantes na área da saúde moderna, pois ajuda os médicos a deixarem de lado as suposições e a adotarem um atendimento ao paciente mais seguro, eficaz e consistente.
O que é Medicina Baseada em Evidências?
A medicina baseada em evidências foi formalmente descrita por Sackett e seus colegas como:
“O uso consciencioso, explícito e criterioso das melhores evidências atuais na tomada de decisões sobre o cuidado de pacientes individuais.”[1]
Em termos simples, a Medicina Baseada em Evidências (MBE) significa que os profissionais de saúde não devem se basear apenas em hábitos, rotina ou opiniões ao tratar pacientes. Em vez disso, as decisões clínicas devem ser guiadas por pesquisas científicas de alta qualidade e adaptadas a cada paciente individualmente.
A medicina baseada em evidências combina três componentes principais:

1. Melhores Evidências de Pesquisa Disponíveis
Isso inclui os estudos científicos da mais alta qualidade disponíveis na época.
Os exemplos incluem:
• Revisões sistemáticas
• Meta-análises
• Ensaios clínicos randomizados
• Estudos de coorte
• Estudos de caso-controle
Esses estudos ajudam a determinar:
• Se um tratamento funciona
• Se é seguro
• Se é melhor do que os tratamentos existentes
2. Experiência Clínica
A pesquisa por si só não basta.
A experiência, o discernimento e o conhecimento prático do profissional clínico continuam sendo essenciais.
Dois pacientes com a mesma condição podem responder de forma diferente ao mesmo tratamento. Profissionais de saúde experientes sabem interpretar as evidências dentro do contexto do paciente que está à sua frente.
A experiência clínica ajuda a responder a perguntas como:
• Este tratamento é adequado para este paciente?
• Este paciente tolerará a medicação?
• Existem riscos que os estudos podem não capturar completamente?
3. Valores e preferências do paciente
Cada paciente é único.
Os pacientes podem apresentar:
• Objetivos diferentes
• Crenças culturais
• Limitações financeiras
• Preferências pessoais
• Diferentes níveis de tolerância a efeitos colaterais ou riscos
A medicina baseada em evidências reconhece que o "melhor" tratamento nem sempre é o mesmo para todas as pessoas.
A boa medicina envolve a tomada de decisões compartilhadas entre o médico e o paciente.[3]

Entendendo a Pirâmide de Evidências
Nem todas as evidências médicas possuem a mesma força ou confiabilidade.
Algumas formas de evidência são mais confiáveis porque reduzem o viés e utilizam métodos científicos mais rigorosos.
Isso geralmente é ilustrado usando a “pirâmide de evidências”.
Nível 5 — Nível mais baixo de evidência
Na parte inferior estão:
• Opiniões de especialistas
• Relatos de casos
• Pequenos estudos observacionais
Esses estudos podem fornecer informações úteis, especialmente para doenças raras, mas são mais vulneráveis a vieses e conclusões limitadas.
Nível 4 — Evidência de nível médio-baixo
Mais acima estão:
• Estudos de caso-controle
Esses estudos comparam pacientes com uma determinada condição àqueles sem a condição, a fim de identificar possíveis fatores de risco ou associações.
Eles fornecem evidências mais robustas do que relatos de casos isolados, mas ainda apresentam limitações e potencial viés.
Nível 3 — Evidência de nível moderado
A seguir estão:
• Estudos de coorte
Esses estudos acompanham grupos de pacientes ao longo do tempo e observam os resultados.
São mais robustos do que os estudos de caso-controle porque conseguem avaliar melhor as relações entre exposições e desfechos ao longo do tempo.
Nível 2 — Evidências de Alto Nível
Próximo ao topo estão:
• Ensaios clínicos randomizados (ECR)
Os ECRs são considerados uma das formas mais robustas de pesquisa clínica porque os pacientes são aleatoriamente designados para diferentes tratamentos, ajudando a reduzir o viés.[4]
Esses estudos são frequentemente usados para determinar se um tratamento é realmente melhor do que outro.
Nível 1 — Nível mais alto de evidência
No topo estão:
• Revisões sistemáticas
• Meta-análises
Essas evidências são frequentemente consideradas o padrão ouro.
Em vez de examinar um único estudo, eles analisam vários estudos de alta qualidade em conjunto para produzir conclusões mais amplas e confiáveis.[5]
Isso ajuda os médicos a tomarem decisões com base na totalidade das evidências, em vez de resultados isolados.

Como a Medicina Baseada em Evidências Funciona na Vida Real
Imagine um médico tratando um paciente com hipertensão.
Durante anos, o médico pode ter usado o medicamento A com sucesso. Então, um medicamento B mais recente torna-se disponível, apoiado por robustos ensaios clínicos randomizados que demonstram melhores resultados cardiovasculares.
Utilizando a medicina baseada em evidências, o médico deveria:
• Analise as melhores evidências disponíveis
• Avaliar a qualidade dos estudos
• Compare os benefícios e os riscos
As evidências podem sugerir que o medicamento B é estatisticamente superior.
No entanto, a experiência do médico pode revelar que este paciente específico já apresentou efeitos colaterais com medicamentos semelhantes ou que tolera melhor o medicamento A.
As preferências do paciente também importam:
• Eles têm condições de comprar o medicamento?
• Eles se sentem confortáveis com os efeitos colaterais?
• Eles preferem tomar menos comprimidos por dia?
Em última análise, a decisão final combina:
• Evidências científicas
• Julgamento clínico
• Preferência do paciente
Isso é cuidado verdadeiramente baseado em evidências.
Os Cinco Passos da Prática Baseada em Evidências
A medicina baseada em evidências geralmente segue cinco etapas principais:[6]
1. Pergunte
Formule uma questão clínica clara.
Exemplo:
O medicamento B é mais eficaz do que o medicamento A na redução do risco de AVC?
2. Adquirir
Procure as melhores evidências disponíveis.
Isso pode envolver:
• Revistas médicas
• Diretrizes clínicas
• Revisões sistemáticas
• Bases de dados de pesquisa
É aqui que as modernas ferramentas de apoio à decisão clínica podem ajudar significativamente os médicos.
3. Avaliar
Analise criticamente as evidências.
As perguntas incluem:
• O estudo é confiável?
• Houve algum viés?
• O tamanho da amostra é suficientemente grande?
• Os resultados são clinicamente significativos?
4. Aplicar
Combine as evidências com:
• Experiência clínica
• Valores do paciente
• Contexto clínico do mundo real
5. Avaliação
Avaliar os resultados e continuar aprimorando a prática clínica.

O desafio da sobrecarga de informações
Um dos maiores desafios da medicina moderna é o enorme volume de informações.
Milhares de estudos médicos são publicados todos os anos.[7]
Nenhum médico, enfermeiro ou profissional de saúde consegue, de forma realista, ler, interpretar e avaliar criticamente toda a nova literatura científica continuamente.
Isso cria uma grande lacuna entre as evidências disponíveis e a prática clínica no mundo real.
Os médicos frequentemente se deparam com:
• Restrições de tempo
• Sobrecarga de informação
• Diretrizes em rápida mudança
• Dificuldade em sintetizar evidências rapidamente no momento do atendimento
Levando a medicina baseada em evidências ao ponto de atendimento.
É aqui que ferramentas de apoio à decisão clínica, como o ZoeMD, podem ajudar.
Em vez de pesquisar manualmente em vários periódicos, bases de dados e estudos, os médicos podem consultar rapidamente informações baseadas em evidências e receber respostas sintetizadas e clinicamente relevantes no momento do atendimento.
O objetivo não é substituir os médicos.
O objetivo é melhorar o acesso às evidências para que os profissionais de saúde possam tomar decisões mais rápidas, seguras e bem fundamentadas.
Quando usadas de forma responsável, essas ferramentas podem ajudar:
• Reduzir a carga cognitiva
• Melhorar a eficiência
• Apoiar decisões baseadas em evidências
• Aumentar a segurança do paciente
• Manter os médicos atualizados sobre as pesquisas em constante evolução.

Por que a medicina baseada em evidências é importante
A medicina baseada em evidências melhora a assistência à saúde porque:
• Promove um atendimento mais seguro ao paciente
• Reduz tratamentos desnecessários
• Incentiva intervenções eficazes
• Melhora a consistência na prática clínica
• Ajuda os médicos a se manterem atualizados com as pesquisas em constante evolução.
Mais importante ainda, isso ajuda a garantir que as decisões médicas sejam guiadas pelo melhor conhecimento disponível, em vez de práticas desatualizadas ou suposições sem fundamento.
Considerações Finais
A medicina baseada em evidências não visa eliminar o lado humano da medicina.
Trata-se de fortalecer a medicina com melhores evidências.
As melhores decisões em saúde acontecem quando:
• Evidências científicas
• Experiência clínica
• Preferências do paciente
todos trabalham juntos.
À medida que a medicina continua a evoluir, o acesso a evidências confiáveis no momento do atendimento se tornará cada vez mais importante.
O futuro da saúde não é uma questão de médicos versus tecnologia.
São os médicos que se sentem mais capacitados por um melhor acesso às evidências.
Referências
1. Sackett DL, Rosenberg WM, Gray JA, Haynes RB, Richardson WS. Medicina baseada em evidências: o que é e o que não é. BMJ. 1996;312(7023):71–72.
2. Guyatt G, Cairns J, Churchill D, et al. Medicina baseada em evidências. Uma nova abordagem para o ensino da prática da medicina. JAMA. 1992;268(17):2420–2425.
3. Barry MJ, Edgman-Levitan S. Tomada de decisão compartilhada — o ápice do cuidado centrado no paciente. N Engl J Med. 2012;366(9):780–781.
4. Hariton E, Locascio JJ. Ensaios controlados randomizados — o padrão ouro para pesquisa de eficácia. BJOG. 2018;125(13):1716.
5. Murad MH, Asi N, Alsawas M, Alahdab F. Nova pirâmide de evidências. Evid Based Med. 2016;21(4):125–127.
6. Straus SE, Glasziou P, Richardson WS, Haynes RB. Medicina Baseada em Evidências: Como Praticar e Ensinar MBE. 5ª ed. Elsevier; 2018.
7. Bastian H, Glasziou P, Chalmers I. Setenta e cinco ensaios e onze revisões sistemáticas por dia. PLoS Med. 2010;7(9):e1000326.



